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Crise e Irritação ou "Tá todo mundo nos cascos" |
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Um epidemia vem tomando conta do país: a irritação. Trata-se da hipersensibilidade aumentada pelo estresse. O estresse é fruto de excesso de desgaste físico e mental também aumentados pela crise. Tem coisas que te cansam, tem coisas que te estressam. Por exemplo: você conversa com alguém por várias horas; isso te cansa. Você conversa com alguém cujo jeito te desagrada, cujo ritmo, as opiniões e valores são muito diferentes dos teus; isso te estressa, te desgasta. Trabalha-se mais, ganha-se menos. Trabalha-se mais, descansa-se menos. Ter que lidar com centenas de coisas ao mesmo tempo com poucas chances de lazer, prazer e descanso. O estresse pode ser também sintoma de que a pessoa está longe de ser aquilo que gostaria, longe dos seus sonhos. Mas isto já é uma outra estória. As situações de estresse incrivelmente aumentado são as situações tais como problemas graves de saúde, grandes perdas afetivas (separação e/ou luto), problemas financeiros constantes e outros. Essas situações de estresse costumam afetar-nos de modo a deixar-nos bem mais vulneráveis, mais fragilizados, mais sensíveis, mais irritáveis, mais irritadiços. Estamos percebendo isso no nosso dia a dia. No trânsito, no trabalho, nas relações, estamos menos tolerantes, mais pavio curto. Não é a toa que o mundo inteiro reclama da violência. A violência não é obrigatoriamente fruto da pobreza mas com certeza pode ser fruto de desespero prolongado. São comuns os filmes que ligam a violência ao estresse. Hollywood adora abordar o tema em seus filmes. Porém, o que queremos aqui é refletir sobre essa sensibilidade estranhamente aguçada que faz com que se reaja com excessiva mágoa a qualquer toque do outro. Qualquer toque que nos exponha ou que nos faça sentir expostos. Lançados a mercê do julgamento alheio, da apreciação alheia ou da depreciação alheia. Antigamente se dizia "estar nos cascos" a respeito de alguém que se "toca", que se irrita por qualquer coisa. É, parece que a crise nos deixa "nos cascos". Crise- s.f. Transformação, conjuntura e perigo,situação difícil.(Silveira Bueno) Transformação !!! E é graças a essa hipersensibilidade que a crise pode ser uma grande oportunidade de depurar os sentidos, burilar a personalidade, perceber que aquilo que nos irrita nos outros é exatamente o que, em nós, irrita os outros. Incrível, não ? Por que ? Você achava que não irritava ninguém ? Oh santa ingenuidade ! Bem, que mais podemos então aprender com a crise ? Quem sabe, se colocar no lugar do outro, lembra-nos constantemente que quanto mais fragilizados, ficamos mais sensíveis, fáceis de nos irritar, mais intoleráveis. Lembrar disso para não ferir gente que a gente não queria ferir. Vale ? Não sair por aí distribuindo "patadas". A crise financeira em que nos achamos, apesar das francas promessas de melhora, nos lança na irritação, na diminuição considerável da paciência (ciência da paz). Coisas que em outras épocas não nos afetaria, em tempos "bicudos" nos faz "subir nas tamancas". A própria compreensão de que estamos em constante estado de alerta faz com que possamos lidar um pouco melhor com nossa própria falta de paciência. Diante de dificuldade só nos resta crescer. Crescer ? Sim ! Crescer. Quando a situação está além do meu controle, tudo que me resta é "agrandar" minha compreensão e minha capacidade de lidar com o desconforto. Desconforto gerado pela insegurança provocada pela crise. Complicado ? Nem tanto, se você se lembrar da velha e meio esquecida gentileza. É, sabe aquela gentileza de cumprimentar todo mundo que passar perto de você com um sorriso. Perguntar da família. Não esquecer do por favor e obrigado o dia todo. Você acha difícil exercer essa cordialidade com tantos problemas que você tem que enfrentar todo dia ? Faz uma forcinha ! Lembre-se que a gentileza, assim como a irritação, também é contagiante. Bom humor é contagiante. Sorrir é contagiante. Alegria é contagiante. Vamos nos contagiar de bom astral. Vamos contagiar os outros com nosso melhor sorriso. De qualquer modo, se preocupar um pouco mais com os outros é sempre uma boa receita para sair um pouco dos próprios problemas. A empatia que é a qualidade de se colocar no lugar, na pele do outro, é característica dos humanos mais evoluídos. Se nos colocarmos mais constantemente no lugar daquele outro que estamos xingando no trânsito, ou daquele outro que nos irritou no trabalho ou daquele chefe que nos exige demais porque o seu próprio emprego está em risco, estaremos dando uns passinhos a mais na direção da nossa própria felicidade. A felicidade que é feita de pequenas coisas.
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