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Trabalho
realizado: Clínica e Ciências do Sono, Departamentos de Neurologia
e Medicina Baseada em Evidências da UNIFESP 1 - Psicóloga,
Pós-graduanda da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
2 - Psicólogo, NECON UNIFESP, Universidade Paulista (UNIP)
3 - Terapeuta Ocupacional, Pós-graduanda da UNIFESP 4 - Coordenadora
do Laboratório de Sono da Clínica e Ciências do Sono
da UNIFESP 5 - Psicóloga, Coordenadora do Ambulatório da
Clínica e Ciências do Sono da UNIFESP 6 - Neurologista, Coordenador
da Clínica e Ciências do Sono da UNIFESP Trabalho recebido
em 10/12/05. Aprovado em 22/12/05 Insônia: doença crônica
e sofrimento Insomnia: chronic illness and suffering Maria José
V Varela1, João Eduardo C Carvalho2, Maite Varela1, Clarisse Potasz3,
Lucila BF Prado4, Luciane B C Carvalho5, Gilmar Fernandes do Prado6.
RESUMO
Insônia é a dificuldade em iniciar ou manter o sono, ou mesmo
a percepção de um sono não-reparador, combinada com
conseqüências adversas durante o dia como fadiga excessiva,
queda da performance ou mudança de humor. O objetivo
deste trabalho é procurar obter um entendimento desta condição,
tentando aliar as questões de saúde física, psíquica
e social, tendo um olhar mais apurado para a interligação
entre os mesmos, discutindo o sofrimento desencadeado pela insônia
como doença crônica. Atentando para o paciente, conceitos
das ciências sociais e da psicanálise são considerados,
assim como modelos de ciência para compreender o mundo social. Detém-se
na visão do ser humano como integral, conectado à sua ontogênese
e filogênese. Aprofunda-se esta busca de entendimento passando pelos
conceitos de subjetividade, intersubjetividade e de cultura, focando os
aspectos relativos ao impacto do sofrimento social na pessoa que vai lidar
com o processo do adoecer, ou seja, como vai conviver com a cronicidade
e o sofrimento de sua enfermidade. Concluímos que fatores psicossociais
contribuem de maneira importante para compreender o sofrimento associado
à condições crônicas como pode se dar na insônia,
e que sua consideração pelos profissionais de saúde
é necessária para seu tratamento. Unitermos: Insônia,
Doença Crônica, Sofrimento Psíquico. Citação:
Varela MJV, Varela M, Potasz C, Carvalho JEC, Carvalho LBC, Prado LBF,
Prado GF. Insônia: doença crônica e sofrimento. Rev
Neurociencias 2005; 13(4):183-189.
INTRODUÇÃO
Este trabalho tem como objetivo discutir
a condição de sofrimento de pessoas que se encontram com
insônia ou com uma co-morbidade que a desencadeie, buscando por
um entendimento que perceba o sujeito como ser integral. Sintomas como
a insônia remetem à idéia de que as relações
do sujeito com o outro (que pode ser, inclusive, o profissional da área
da saúde) e com a sociedade podem estar permeadas por uma condição
de sofrimento de difícil compreensão, demandando para o
seu tratamento de um preparo além do técnico ou teórico.
A ciência positivista lida, de forma inigualável, com aspectos
da natureza, organizando, criando sistemas
e impetrando toda uma lógica para facilitar o entendimento a respeito
da complexidade desta natureza como um todo. O sentido dos fenômenos
naturais refletidos na fisiologia humana, nas alterações
neuronais, pode ser alvo de uma nova interpretação, tendo
em vista o contexto social no qual ele se apresenta, o que tem ficado
a cargo das ciências sociais: O interesse central desta ciência
é o fato de que os seres humanos não são apenas objeto
de investigação, mas pessoas com as quais agimos em comum:
são sujeitos em relação 1. Assim, perceber
o homem como um ser total demanda também sensibilidade, uma percepção
mais sutil, mais profunda, do que ocorre com a pessoa e que diz respeito
às suas singularidades, às suas misérias (sofrimento)
e às suas realizações.
Saúde
A Organização Mundial de Saúde (OMS) conceitua saúde
como sendo o estado de completo bem estar físico, mental e social
e não somente a ausência de doença ou enfermidade2.
Em relação à saúde mental vista a partir do
referencial psicanalítico3, o comportamento de pessoas em seu ambiente
social deve ser considerado, investigando o desenvolvimento deste indivíduo
da infância à maturidade. A compreensão destas questões
pode levar ao entendimento da vida social, uma vez que uma personalidade
bem integrada pode ser a base de saúde mental. Alguns elementos
de uma personalidade bem integrada apontados por Klein seriam a maturidade
emocional, a força de caráter, a capacidade de lidar com
emoções conflitantes, o equilíbrio entre a vida interna
e a adaptação à realidade, em síntese, uma
integração dos elementos bem sucedidos de aspectos da personalidade
de uma pessoa, os quais serviriam de base para este equilíbrio,
que, no entanto, não é estanque.
Insônia:
definição
Olhando para o sintoma de insônia, não há como desvinculá-lo
da pessoa em seu aspecto singular. Em
relação à etimologia4 insônia vem do latim
in-somnia,ae que é falta de sono (son-i, somnus). A ICSD5 (Classificação
Internacional dos Distúrbios do Sono, 1997) define a insônia
como dificuldade em iniciar ou manter o sono, ou mesmo a percepção
de um sono não-reparador, combinada com conseqüências
adversas durante o dia, como fadiga excessiva, queda da performance
ou mudança de humor. Insônia é um sintoma sempre que
a quantidade ou qualidade de sono é insatisfatória. Mesmo
que o número de horas de sono possa não estar reduzido,
a maioria dos insones sente fadiga, cansaço, ardência nos
olhos, irritabilidade, ansiedade, fobias, incapacidade de concentrar-se,
dificuldades de atenção e memória, mal-estar e sonolência.
Insônia:
critérios diagnósticos Segundo o CID-106, os seguintes
aspectos clínicos são essenciais para um diagnóstico
definitivo: a) a queixa é tanto de dificuldade de adormecer quanto
de se manter dormindo ou de pobre qualidade de sono; b) a perturbação
de sono ocorreu pelo menos três vezes por semana durante pelo menos
um mês; c) há preocupação com a falta de sono
e consideração excessiva sobre suas conseqüências
à noite e durante o dia; d) a quantidade e/ou qualidade insatisfatória
de sono causa angústia marcante ou interfere com o funcionamento
social e ocupacional.
Insônia:
significado A
insônia está entre as queixas mais comuns na prática
médica e é a mais prevalente dos distúrbios do sono
na população em geral7. A estimativa epidemiológica
indica que 6% da população adulta tem insônia; 12%
referem sintomas de insônia com conseqüência diurna e
15% estão insatisfeitos com o sono. Na primeira consulta, cerca
de 20% dos pacientes indicam distúrbios significantes do sono.
A insônia persistente pode tornarse um fardo para a
pessoa e para a sociedade como se evidencia pela qualidade de vida reduzida,
pelas faltas e baixa de produtividade no trabalho, além do alto
custo para o sistema de saúde. A insônia persistente está
também associada com o risco de depressão e com o uso crônico
de hipnóticos. Entre os idosos, os prejuízos cognitivos
podem antecipar internações.
Insônia:
classificação
Classifica-se a insônia quanto à severidade, frequência
e duração5. Quanto à duração, a insônia
pode ser transitória ou aguda (presente em algumas noites e associada
a circunstâncias adversas da vida e a estresse), de curta duração
(pode persistir por tempo inferior a três semanas), crônica
(também chamada de longo prazo, sua duração pode
ultrapassar três semanas) ou intermitente (associada a distúrbios
psiquiátricos como distúrbios de ansiedade). Quanto ao tipo,
a insônia pode ser inicial, sono entrecortado - insônia de
manutenção e insônia de final de noite. A insônia
psicofisiológica pode ocorrer por fatores predisponentes, precipitantes
e perpetuantes.
A insônia persistente pode estar associada a risco de depressão
e ao uso crônico de hipnóticos. Quanto à origem, pode
ser psicológica, fisiológica ou ambiental; além disso,
pode estar associada a outras patologias. O fator primário da insônia
pode advir de uma causa emocional. Pode ocorrer de uma perturbação
do sono ser um dos sintomas de outro transtorno mental ou físico.
Muitos fatores psiquiátricos e/ou físicos podem contribuir
para a ocorrência do transtorno, mesmo que ele pareça clinicamente
in dependente. Naturalmente, uma avaliação clínica
cuidadosa é necessária, antes de excluir uma base psicológica
para a queixa. Para um diagnóstico, pode-se recorrer à Polissonografia
e à anamnese. A Polissonografia consiste do registro simultâneo
de atividades do indivíduo durante a noite5. Vários eletrodos
e sensores são posicionados no corpo do paciente. Trata-se de monitorização
de vários parâmetros biofisiológicos de um paciente
enquanto ele dorme: através do eletroencéfalograma, eletro-oculograma,
eletromiograma, eletrocardiograma, fluxo aéreo, movimento torácico
abdominal, oximetria, ronco e posição corpórea. Estes
exames são feitos com aparelhos digitalizados que permitem uma
aquisição precisa de dados e análise do paciente
durante a noite. A anamnese investiga diferentes componentes referentes
à natureza da queixa5. São levantadas informações
sobre os fatores predisponentes, os fatores que exacerbam a insônia
ou melhoram o padrão do sono, os fatores etiológicos, o
padrão de despertar, os sintomas diurnos, o impacto no dia a dia,
a má adaptação ao ambiente do sono, comportamentos
e rotinas na hora de dormir, crenças sobre o dormir ou causas da
insônia, os sintomas de outros dias do sono, a expectativa quanto
ao tratamento; as medicações e substâncias usadas
para dormir, ou seja, as medicações prescritas, outras medicações,
álcool, tabaco, café e substâncias ilícitas.
São investigados ainda o histórico clínico, as doenças
com relação ao distúrbio do sono e outras doenças
como a história psiquiátrica do paciente (depressão,
ansiedade, outras desordens psiquiátricas
ou nível de estresse).
Impacto:
sofrimento
Apesar
da alta prevalência e de seu impacto social e pessoal negativo,
a insônia continua sem o devido reconhecimento ou tratamento adequado,
pois menos que 15% dos pacientes com insônia severa passam pelos
cuidados de um profissional da saúde5. Muitos pacientes que iniciam
tratamento o fazem sem uma consulta médica e freqüentemente
recorrem a alternativas de risco e benefícios muitas vezes desconhecidos.
Por outro lado, buscando ajuda médica, o tratamento freqüentemente
fica limitado ao uso de medicamentos. Embora os medicamentos hipnóticos
sejam clinicamente indicados e úteis em muitas situações,
os fatores psicológicos e comportamentais estão quase sempre
envolvidos na perpetuação dos distúrbios do sono.
O manejo clínico destes fatores na insônia pode ser dirigido
num trabalho multidisciplinar, uma vez que avanços significantes
têm sido alcançados com condutas psicológicas e comportamentais7.
Vista de forma isolada, a insônia é um sintoma, nunca um
diagnóstico, excetuando a insônia primária e má
percepção do sono. Embora a insônia apareça
na fala do paciente em forma de queixa, o não tratamento de sua
causa, pode torná-la crônica, constituindo-a como doença.
OBJETIVO
A proposta desta investigação é tomar alguns conceitos
típicos das ciências sociais e da psicanálise e relacioná-los
à observação dos fenômenos psicossociais presentes
nas relações do indivíduo com queixa de insônia.
MÉTODO
São apresentados conceitos das Ciências Sociais (cultura)
e da Psicanálise (subjetividade e intersubjevidade); recorremos
também a uma concepção mais ampla das representações
de saúde/doença e de sofrimento para avaliar o paciente
com insônia. Cultura: ontogênese e filogênese. Herbert
Marcuse, numa releitura de Freud à luz da filosofia, expressa como
a história de vida do sujeito e sua herança arcaica estão
conectadas8, ou seja, como os planos ontogenético e o filogenético
estão interligados. A dimensão ontogenética conta
da evolução do indivíduo desde a mais remota infância
até a sua existência social consciente. Do ponto de vista
etimológico4, vemos que ontogênese vem de ont(o), do grego
ón, óntos (ser, indivíduo), e de genes(e), do grego
gênesis (geração, criação). Isto leva
a Onto, como desenvolvimento do indivíduo desde a fecundação
até a maturidade para a reprodução e Gênese
como formação, constituição desde uma origem.
A dimensão filogenética revela a evolução
da civilização desde a horda primordial até o estado
civilizado plenamente constituído. Filogênese = filo + gênese.
Filo, do grego Philon, significa a grande divisão taxionômica
dos organismos baseada apenas no plano geral de organização
dos organismos e subdividida em classes4. Isto é, a história
evolucionária das espécies, a herança arcaica. A
experiência humana pode, portanto, ser observada em dimensões
como a sua constituição (ontogênese) como também
de sua herança mais arcaica, mais universal (filogênese)
juntando ao funcionamento biológico que vai indicar a sua natureza,
além de as suas experiências interpessoais, sua história
e o contexto social onde se encontra inserido que é a cultura8.
Do ponto de vista antropológico, a cultura pode ser compreendida
como um padrão de significados transmitidos historicamente, incorporado
em símbolos, ou seja, sistemas de concepção herdadas
que se expressam em formas simbólicas por meio das quais os homens
comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades
em relação à vida9. Este universo cultural, onde
o indivíduo se desenvolve e se socializa, se faz acompanhar de
um conjunto de valores, símbolos, atitudes, modos de sentir e de
sofrer, ou seja, maneiras de organizar a sua subjetividade, cuja importância
se observa na constituição do sujeito, de suas relações
interpessoais e de seu adoecer.
Subjetividade
e Intersubjetividade
Abordando a questão social, Minayo1 reflete sobre o que Schutz
descreve como alguns princípios para a compreensão do mundo
social onde a pessoa se encontra inserida, ou seja: a) intersubjetividade
estamos sempre em relação uns com os outros; b) compreensão
para atingir o mundo vivido, a ciência tem que apreender as coisas
sociais como significativas; c) a racionalidade e a internacionalidade:
o mundo social é constituído sempre por ações
e interações que obedecem a usos, costumes e regras ou que
conhecem meios, fins e resultados. É fundamental, para um melhor
entendimento do que se propõe, em termos de contato com o outro,
recorrer a dois conceitos que dão a dimensão do sujeito,
cujo foco é nosso objetivo. Destacam-se duas definições
de subjetividade que parecem pertinentes à esta proposta, além
de serem complementares entre si. Para Alfredo Naffah Neto, subjetividade
é uma espécie de envergadura interior, de vazio capaz de
acolher, dar abrigo e morada às experiências da vida: percepções,
pensamentos, fantasias, sentimentos10. Por outro lado, Luís Cláudio
Figueiredo afirma: modos de subjetivação como propiciadores
de determinadas formas de vir-a-ser sujeito, de se constituir enquanto
um campo determinado de experiência, campo histórico e culturalmente
determinado em que se configuram as modalidades da experiência de
si e do mundo que alguém pode realizar, pode efetivar, pode elaborar
11. É interessante notar que a subjetividade nos remete a sujeito,
e ambos têm a mesma origem etimológica4, do latim subjectu
(o que subjaz, o que jaz no fundo). A subjetividade existe a cada época,
marcada pelos acontecimentos. Subjetividade é a relação
com os recursos internos, como a pessoa lida com o sofrimento, com as
circunstâncias, com as perdas e as ameaças constantes. É
um perceber-se não auto-suficiente. Estar com o outro, considerando
as outras pessoas esta também é uma questão. Percebe-se
como algo que toca a intersubjetividade o que Freud diz sem nomeá-la
assim, ao afirmar que na vida psíquica individual, está
sempre integrado o outro, efetivamente, como modelo, objeto, auxiliar
ou adversário e, sempre a Psicologia Individual é, ao mesmo
tempo e desde o princípio, Psicologia Social12. Comentando
esta citação de Freud, Fernandes, num artigo sobre a intersubjetividade,
comenta que a idéia de um entrelaçamento psíquico
intersubjetivo pode estar ligada a uma outra, à estrutura do psiquismo
na intersubjetividade: assim, o aparelho psíquico constituído
como é de lugares e processos que contêm ou introjetam as
formações psíquicas de mais de um outro num feixe
de traços, marcas, vestígios, emblemas, signos e significantes,
que o sujeito herda, recebe e deposita, transforma e transmite13.
A relação entre o presente e o curso da doença é
inseparável da história de vida. Vem daí a necessidade
de uma investigação cuidadosa para servir de suporte para
a pessoa, para a família e para os profissionais da saúde
e isto vai fazer a diferença: a empatia em relação
aos acolhimentos dos sintomas facilita a adesão ao tratamento.O
sofrimento pode tornar-se a forma de viver da pessoa e falar dele para
o outro disponível na escuta é terapêutico. Ouvir
o outro não é uma tarefa fácil: é a busca
do latente, apoiando-se no que é dito de forma manifesta. A queixa
manifesta aparece na fala dos pais, da escola, do chefe, dos familiares.
A latente mostra-se na dinâmica do funcionamento da pessoa. Desta
forma, pode-se perceber como uma angústia que pode autenticar (desvelar)
ou mesmo mascarar a queixa.
Doença crônica e sofrimento O homem sofre permanentemente
ameaças de sofrimento. O indivíduo desfruta a felicidade
como um fenômeno episódico pela limitação
na capacidade de senti-la ou pelo fato da infelicidade ser mais experienciada14.
O homem está sujeito a três ameaças de sofrimento,
de maneira permanente: do próprio corpo, através de sinais
de dor e angústia enviados a ele; do mundo externo que pode lançar
ataques intensos; e da relação humana através de
vínculos com outros seres. O que fazer? Evitar o sofrimento, isolar-se,
proteger-se do corpo, da natureza e de conflitos? O paradoxo é
que o homem acaba criando situações que se revertem em seu
próprio mal estar.
Para Freud, acontecimentos históricos contribuem para a produção
de atitude de hostilidade para com a civilização. Ele aponta
que a humanidade foi atravessada por três grandes golpes em sua
natureza autocentrada que deveria por fim à presunção
de superioridade: ser colocados fora do centro cósmico (Copérnico
(1543) e golpe no dogma geocêntrico - cosmológico); postados
na mesma linha dos animais (Darwin (1859) e golpe no dogma antropocêntrico
- biológico) e determinados pelo desconhecido que há em
nós mesmos. Isto é viver um estado de frustração
que também é uma fonte de sofrimento15.
A cronicidade de uma doença pode gerar grandes mudanças16.
E as mudanças podem transmitir insegurança e acentuar o
desamparo. O impacto que uma doença crônica ocasiona pode
ser da ordem do econômico ao interferir na capacidade de produzir.
O custo disto fica evidenciado no sofrimento social e o problema pode
ser abordado como incapacidade de produzir em fracassos escolares, profissionais
ou familiares.
A Organização Mundial da Saúde e a Associação
Americana de Saúde desenvolveram pesquisas epidemiológicas
e concluíram que nossa civilização atua de maneira
a favorecer a depressão5, o que parece convergir com as idéias
defendidas por Freud. A propósito disto, Kehl afirma que a depressão
emerge como sintoma do mal-estar produzido e oculto pelos laços
sociais, com o vazio do ser agravado em função do empobrecimento
da subjetividade, característico de nossa sociedade consumista
e competitiva17.
O médico e antropólogo Arthur Kleinman afirma que: doença
crônica é uma ponte que liga o corpo, o eu e a sociedade:
esta rede vai conectando o processo psicológico, o significado,
e as relações, de maneira que o mundo social faça
o link com as experiências internas, singulares da pessoa16.
Acreditamos que a enfermidade crônica pode paralisar, deixar a pessoa
num ostracismo por sentir-se diferente, condenada a viver à margem
da vida. Na cronicidade, a doença pode controlar e limitar a pessoa,
pois a necessidade de um tratamento contínuo pode ser desanimador:
o curso da doença crônica é inexorável. Além
disso, surge também o sentimento de vulnerabilidade que conduz
à negação da doença e a disposição
para não se tratar. Surge o questionamento: Por que eu? O significado
do sintoma pode comprometer a vida do paciente. E a confiança tem
um efeito de dupla mão, afetando tanto o profissional quanto o
paciente. Este significado pode transcender a doença física
por capturar aspectos sociais e culturais que remetem ao sentido. A doença
requer um cuidado para que o entendimento tire a pessoa do mundo da incerteza:
o que acontece comigo? Que sofrimento é este que não é
concreto? O homem é submetido a frustrações ao procurar
atingir um ideal culturalmente estabelecido, neste caso, a busca do tratamento
ideal e também do profissional ideal. O mundo moderno pode adoecer
exatamente por estas idealizações, quando a visão
médica da doença nem sempre coincide com a experiência
vivida e narrada pelo paciente18.
A pessoa enferma é a que vive a experiência dos sintomas
aos quais acrescenta seu grau de sofrimento: perceber-se doente, conviver
com a doença e responder aos sintomas, muitas vezes com sentimento
de vergonha, de raiva, de desespero. Aqui pode aparecer o estigma, isto
é o sintoma carregado de significado cultural19. Olhando por outro
prisma, o mal-estar e a frustração podem abrir portas para
outras possibilidades, pois o sofrimento pode advir da esfera deste ideal.
Ficar esperando um acontecimento é não viver ou não
trabalhar e mesmo desiludida, a pessoa pode considerar outros aspectos
de sua vida, a partir de sua vivência no cotidiano. Conforme afirma
Carvalho, a resistência à submissão pode indicar,
além de um movimento não intencional, um sentir-se sujeito
(pessoa) dentro do jogo social. Isto significa não penas tornar-se
visível, mas também dotado de capacidade para transformar,
deixando de ser objeto determinado para tornar-se sujeito de seu destino,
inserido na sociedade e na cultura a que
pertence20.
RESULTADOS
E DISCUSSÃO Por que sofrer de insônia? O que está
por trás destesintoma? Este questionamento nos leva, novamente,
àreflexão sobre o ser humano. A tentativa é de buscar
este entendimento, entrelaçando o conceito de saúde até
a compreensão de um sofrimento que transcende o soma indo para
as relações, na confluência das dimensões ontogenéticas,
filogenéticas e culturais. A vida é estabelecida a partir
de relações e a maneira como os indivíduos atuam
está presente o tempo todo na forma dos seus relacionamentos, através
do amar, do odiar, do falar, do silenciar, do gesticular... ou do estar
insone. O que muitas vezes acreditamos não fazer sentido, ou o
que é perturbador, expressa o que somos para nós mesmos
e para os outros que participam das nossas relações. Daí,
muitas vezes o não conseguir dormir ser a senha para uma existência
que não se reduz ao corpo. Não é possível
ignorar a presença do psiquismo, acontecimento que acompanha toda
a vida humana, sem se localizar em nenhum lugar do corpo vivo17. Por outro
lado, o contexto no qual o indivíduo vive, marcado por determinantes
estruturais, as condições concretas sociais nas quais se
dá sua vida, também irão modular o entendimento que
ele próprio e outros como o profissional de saúde
pode oferecer a um sintoma que se apresenta primeiramente no corpo,
como a insônia. Compartilhado por outros tantos indivíduos,
este contexto pode dizer respeito a ocupação de um lugar
destinado ao sofrimento, definido pela incapacidade de produzir o suficiente
para a satisfação dos próprios desejos, pela frustração
por estar aquém daquilo que a sociedade, a família ou o(a)
parceiro(a) solicita do indivíduo, ou por sua falta de controle
sobre a humanidade que teima em se mostrar aos outros. Fica evidenciado
um paradoxo, pois o homem cria situações que se revertem
em seu próprio mal-estar. Muitas vezes, o que se observa é
a luta do profissional da saúde para encontrar o tratamento perfeito
e a adesão correta do paciente ideal. Sua insuficiência (impotência)
para tratar do soma, do psiquismo e do social num todo, mostra a dificuldade
de ver o paciente de forma integral, seus relacionamentos submetidos a
uma transversalidade. Passando de uma situação individual
para a relação de troca, de intersubjetividade, condição
essencial para a existência humana no mundo, a presença do
humano na compreensão de sintomas como a insônia mostra o
lugar inexorável do sofrimento para o homem.
CONCLUSÃO
As situações sociais e as reações psicológicas
determinam e são determinadas por significados que são variáveis
e dependem da singularidade de cada um. Por isso, a condição
humana com sua reação única pode emocionar ou surpreender
o outro. Estar atento e apreender tipos de personalidade, situação
de vida e aspectos culturais, portanto, pode ratificar uma maneira de
adoecer, pois a doença só vem confirmar a vida: a pessoa
adoece da mesma forma que vive. O sofrimento de uma pessoa não
pode ser medido por um profissional de saúde, mas seus efeitos
no comportamento do indivíduo podem e devem ser mensurados, pois
daí virão os benefícios de um entendimento de si
e do outro. Tratar da insônia como doença crônica
solicita, desta forma, que se localize sujeito e sintoma além do
seu corpo, buscando sentido nos relacionamentos e no lugar social ocupado
por eles.
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outros
artigos
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Maria
José Varela.,
Psicóloga,
Pós-graduanda da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP),
atende em Largo do Arouche, São Paulo, SP. |
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