A obesidade na adolescência

A obesidade que se inicia na adolescência aparece quando os adolescentes são incapazes de dominar as tarefas normais de desenvolvimento de sua idade; e quando se chocam com o bloqueio de sua maturação, muitas vezes regridem para o mecanismo de autodefesas, alimentando-se em excesso para compensar. O preço é "terrível", contudo, pois sua obesidade está alí para ser vista por todos, e constitui um novo impedimento à obtenção do que ele realmente deseja e precisa da vida. A cura tornou-se pior que a doença.

O aspecto amorfo que acompanha a obesidade (parecer um bebê grandão) serve a muitos propósitos para o adolescente. O mais importante destes é aliviar as pressões da biologia interna do adolescente e aquelas do mundo exterior, as quais exigem adaptação, de crescimento e desenvolvimento. Embora os adolescentes que se sentem infelizes possam racionalizar, pensando que comem para se tornarem grandes, não percebem que acabaram escolhendo uma solução regressiva para lidar com os impulsos sexuais e agressivos.

Eles se surpreenderiam se alguém lhes dissesse que sua atração física reduzida colabora para isolá-los. Sua pouca atração sexual paralisa o desenvolvimento sexual, e os aproxima cada vez mais intimamente com a mãe, que propicia o alimento. Nestes termos, isto acaba levando a uma dependência constante do alimento como um dos meios de gratificação.

Como os adolescentes comem em casa, o processo natural de separação e de individualização é prejudicado; como os adolescentes obesos tendem a afastar-se dos seus amigos, isto fortalece ainda mais suas ligações com o núcleo familiar.

A situação se torna crítica!

Embora a gênese deste problema possa ser puramente metabólica, a maior parte das vezes existe um padrão delicadamente entrelaçado de fatores psicológicos, fisiológicos, endócrinos, de aprendizagem condicionada e interpessoais que provocou a obesidade.

O adulto que deseja perder peso deverá lidar com uma reemergência de todos os sentimentos tumultuados do período de adolescência que ele sepultou no tecido adiposo e no corpo. Daí a atitude: "Enquanto eu me mantiver gordo, não terei que mexer com o material emocional reprimido na adolescência. Sobre quem iria jogar meus problemas se eu não fosse gordo?"

Vemos que a obsessão com a obesidade e a circularidade que existe no modo como muitas pessoas lidam com o problema tem muito êxito em afastar o mecanismo percentual do paciente do trato com os problemas "reais". "Primeiro eu preciso emagrecer, depois ..."

Vejo com minha experiência clínica atendendo adolescentes / adultos obesos, que o tratamento de escolha é a terapia a longo prazo, acompanhamento endócrino e estimular alguma atividade física que mais o agrade.

Este diagrama (é cíclico) demonstra o fenômeno: a criança se sente culpada e envergonhada, retrai-se, come mais, torna-se mais polarizada, come mais, sente mais culpa, retrai-se mais, ...

Embora o mecanismo da adaptação de "encher" propicie alívio, o faz a um preço formidável para os adolescentes que estão enfrentando problemas de maturação.

Esta defesa continua a ser utilizada, mesmo quando os problemas maturacionais foram tratados de maneira feliz ou infeliz.

No início, a gratificação oral apropriada pelo excesso de alimento constituía uma defesa agradável contra os sentimentos de desespero, solidão, culpa e inadequação, etc. Com a sequência do crescimento, "encher-se" se torna cada vez mais um risco do ponto de vista da saúde física e do crescimento social.

A boa relação com o terapeuta e o médico que o acompanha, é fundamental para obter-se bons resultados. "Estes são seus aliados" - e neles fica depositada todas as esperanças / sonhos e a possibilidade de ser um adulto mais feliz, integrado socialmente e principalmente - consigo mesmo; podendo vir a viver relacionamentos sociais sadios, reforçando sua identidade sexual, lidar com menos conflitos no processo de separação / individualização da família - mantendo lealdade a um grupo e modelos alternativos.

Tenho observado que hoje, a realidade dos pais de adolescentes obesos está se modificando; eles movidos ou não por sentimentos de culpa, vem "reparar" alguma coisa deixada lá traz que "passou desapercebida" , quando este filho ainda era bebê, e permitem a interdição terapêutica e contribuem muitas vezes para o êxito do tratamento.

Neusa Ferrari Sáfadi é psicóloga e desenvolve trabalhos com pacientes obesos.

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