A Obrigação de ser Feliz

 

 

O Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley parece ter se tornado um conto infantil quando comparado ao nosso atual mundo novo, decorrente da sociedade hi-tec cheia de promessas de gozo e felicidade, de uma ciência formidável que tudo pode, tudo provê, de produtos hi-tec maravilhososque, sempre que adquiridos, são como o slogan de uma velha loja de departamentos, a Sears - Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.

Para toda necessidade há um produto, para todo mal há um remédio. Portanto, ser feliz é o dogma. Nosso admirável mundo novo prega o dever de ser feliz. E lá vamos nós, fiéis desse (relativamente) novo credo, atrás da redenção, atrás da vida eterna - Ser feliz.

Qualquer fracasso em relação a essa obrigação moral será chamado a partir de agora de depressão e estará sujeito a penitências como a medicalização e a psicologização. O termo depressão torna-se, portanto, amplamente difundido, uma vez que o fracasso diante da tarefa de ser feliz é constante. Observem que digo o termo e não o diagnóstico da depressão.

Diagnosticar a depressão não deve ser confundido com rotular levianamente os estados de sofrimento humano decorrentes de perdas, dores e fracassos. O que seria afinal, de nós, se perdêssemos a capacidade tão necessária de sofrer diante da perda de um ente querido, de uma separação, de um abandono ou de um fracasso? Seríamos ainda humanos?

O que observamos hoje é o pavor de todos, pacientes ou profissionais da saúde, diante da dor e a necessidade imediata de baní-la, deletá-la, porque dor é ferida aberta, é a denúncia de que existe um buraco aberto para o qual não há uma tampa à venda, que possa solucioná-lo de imediato. Porque existem, sim, males para os quais o remédio não é imediato nem está à venda.

Alguns males humanos como a dor e a tristeza são daqueles que precisam encontrar em si, produzir a partir de si, através da dor, do tempo, da quietude, do desespero, a sua cura singular.

Mas atualmente parece não haver muita disponibilidade para suportar temporáriamente nossas fragilidades porque isso requer desconforto e afinal somos orientados na direção oposta: a busca do conforto,da plenitude,da felicidade a qualquer preço (Sears-satisfação garantida ou seu dinheiro de volta).

Bem, então e a depressão? Não existe?

Existe. Depressão é doença. Caracterizada, entre outras coisas, pela alteração de funções psíquicas como atenção, vontade, vigor e velocidade do pensamento, desinteresse generalizado, alto dispêndio de energia para realização de tarefas simples, tristeza sem objeto e a perda do sentido da existência. Alterações que o profissional de saúde mental deverá (ou deveria) estar apto a identificar, diagnosticar, medicar e acompanhar.

No entanto, isso é bem diferente das generalizações do tipo: alguém fala da morte, é suicida; chora com frequência, administramos anti-depressivos; tem dificuldades em ultrapassar o seu luto, anti-depressivo nele. E o quê essas pessoas vão fazer com o seu medo da morte, com a sua tristeza que faz chorar, com o recolhimento do seu luto? Para onde vão mandá-los? Para o ícone LIXEIRA do computador?

Sabemos que não. Mas é isso que acontece com a administração de anti-depressivos diante da dor humana que não diz respeito à depressão. Acabamos com a possibilidade de que essa dor, essa tristeza sejam afonte de fortalecimento diante das agruras da vida (já que não podemos acabar com as agruras propriamente). Acabamos com a possibilidade de nos aprontarmos para viver a vida como ela se apresenta: agruras, alegrias, tristezas, felicidade, gozo, morte, no ritmo em que se apresentam.

A dificuldade de vivermos numa sociedade hi-tec é nos darmos conta de que não há tecnologia para controlar o ritmo da vida. Cabe-nos vivê-la. Como quando vamos a um baile, não nos cabe escolher o repertório das músicas; cabe-nos dançá-las. Ou não.
Ao perdermos a oportunidade de fazer das circunstâncias adversas episódios transformadores, aí sim, estamos a um passo dadepressão mórbida. O medo do desemprego, o desespero diante de perdas e fracassos não são doença; mas a não transformação destes em subsídios para o crescimento levam, sim, à doença.
Insisto: a depressão está aí, é doença, precisa de diagnóstico competente e tratamento medicamentoso; a dor humana também está aí e precisa de coragem e ajuda para ser vivida e transformada no elemento fortalecedor da condição humana.

Sandra de A. Maia, 48, é psicoterapeuta, supervisora de psicólogos, pesquisadora da Síndrome do Pânico e da Depressão.

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