Padecer no paraíso

 

“se podemos perder nossos pontos de referência sem o sabernos,
nunca estamos seguros de tê-los quando acreditamos possuí-los”
(Merleau-Ponty)


Por diversas vezes ouvi por ai (e quando digo por ai incluio não só amigas, como também minha própria avó, minha mãe, principalmente mulheres das gerações anteriores), que ser mãe é uma dádiva, uma alegria, ou como não podemos deixar de citar o famoso ditado: “é padecer no paraíso”. E todos com quem converso fazem questão de se ater à parte do paraíso, deixando de lado, como em um cantinho escondido, o padecer, pois, afinal de contas, aonde já se viu uma coisa tão boa poder abarcar uma palavra tão pesada como padecer?!


Segundo o dicionário, padecer é “ser atormentado, martirizado, afligido por. Sofrer, suportar. Admitir, consentir, permitir. Ser vítima de violências físicas; sentir dores físicas ou morais”. Quem vê a definição pode até se assustar em um primeiro momento, mas vamos por partes.


Fisiologicamente (falando rápido e superficialmente) a mulher, antes mesmo de engravidar, passa por ciclos hormonais que influem em seu estado de humor, na tolerância a dor, no rendimento físico e mental, na retenção de líquidos no corpo etc. Quando a mulher engravida, esses “sintomas”, por assim dizer, se “agravam” ainda mais. O corpo começa a mudar de maneira acelerada, os hormônios, para dar conta da nova demanda metabólica, também ficam enlouquecidos, mudanças tão repentinas,muitas vezes podem ser sentidas como uma violência física, este corpo, antes conhecido e seu, agora é outro, desconhecido e incontrolável. Retornando ao significado de padecer, é permitir que o corpo seja veículo de formação de outro ser.


Não podemos nos esquecer que somos, todos nós, seres que vivem no mundo com outros, portanto, a mulher grávida, também está inserida no mundo das relações, em que tem que se haver não só com todas as mudanças que estão acontecendo com ela, mas com toda a carga social de ser mãe. Expectativas a respeito do emprego, contas, amigos e amigas, os avós da criança, o pai da criança, e todo o entremeio das diversas configurações desse sistema que envolve a gestação.


Estes são apenas dois recortes singelos do que uma mulher vivencia na gestação, dentre estes existem inúmeros outros que aqui não foram abordados, portanto, a gestação não é apenas mais uma fase da vida que passa. Existe uma grande mudança de valores e significados diante da existência, e todo processo de mudança envolve perdas, dores e medos. Assustadores medos diante do infinito de possibilidades dadas à condição gestante. Voltamos novamente ao conceito de padecer. Essas vivências não devem ser ignoradas e sim acompanhadas, devem ter espaço para se tornarem experiências passíveis de reflexão e ressignificação. Ser mãe é ter espaço, espaço muitas vezes fomentado por um profissional, não é ser sozinha, é ser junto e completa, com todos os momentos maravilhosos e também os difíceis das novas descobertas.


Daniela Panisi
Psicóloga
CRP:06/89184
Contato: danielapanisi@hotmail.com

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